Um homem de pele clara, trajando uma bermuda escura, mirava o horizonte em pé sobre uns rochedos á beira-mar, tocava uma melodia qualquer em uma gaita de boca. O mar estava calmo, uma brisa leve soprava, o sol no poente tornava a superfície da águas em um alaranjado radiante, como se milhares de peixes dourados estivessem nadando e brincando alegremente. Qualquer cristão acreditaria, se lhe afirmassem isso, que ali era o paraíso. Thaís caminhava nas areias da praia em direção aos rochedos, um som qualquer a atraía sobrenaturalmente naquela direção, ela estava muito longe, quanto mais avançava, mais distantes os rochedos ficavam. Ela prosseguia com determinação, o receio do que encontraria ali, lhe despertava um frio incômodo no estômago. Ela avançava e se distanciava, forçou os passos, o suor que escorria pela sua testa fazia seus cabelos ficarem pregados ao rosto, não adiantava, ela se distanciava mais e mais, iniciou uma leve corrida, sentia-se ofegante, fadigada, o corpo todo pedia para parar, o desespero tomava conta de seu espírito, a distância fazia-a avistar os rochedos como um ponto minúsculo ao longe, o som que lhe atraía estava sumindo... TÁ! TÁ! TÁ!
Assustada, respiração descompassada e muito suada Thaís se senta na cama. Há meses que o mesmo pesadelo a atormenta, terminando sempre com o som de três estouros. A terapia a que vem se submetendo não surte efeito, o sonho repetitivo sempre a remetia ao dia que presenciou um assalto e um brutal assassinado em uma agência dos correios.
“Preciso superar isso, preciso...”. Pensava com angústia. “As aulas começam em duas semanas, você precisa superar isso garota, sei que você vai superar. Você vai superar...”. E se entrega a um choro profuso, carregado de emoções contraditórias.
A universidade era enorme, podia ser bem maior que muitas pequenas cidades, possuía vários prédios espalhados num enorme território fertilizado de saber, corredores que somados poderiam ser usados para sediar uma corrida de maratona. O movimento intenso de estudantes, calouros e veteranos ampliava a percepção da dimensão do lugar. Thaís estava deslumbrada, nunca vira algo tão colossal, o colégio federal aonde estudava no interior era grande, era... Observava cada detalhe, tudo que era mini ou macro, tudo era sensacional aos seus olhos, as árvores, os bancos, as janelas, o corredores, uma flor solitária e o gramado aonde residia, as pessoas, as expressões, os traços peculiares, narizes grandes e pequenos, bocas de lábios finos ou lábios grossos, negros ou brancos, cabeludos e carecas, louros, ruivos, black power, cada mínimo detalhe era uma mega descoberta. Não que ela nunca tivesse visto pessoas ou coisas assim, mas a sensação da sua nova fase de vida deixava-a sensível á tudo. Parada ali no meio de um pátio qualquer ela podia facilmente distinguir os calouros dos veteranos, os calouros, como ela, estavam em sua maioria extasiados com tudo aquilo, os veteranos olhavam a tudo com indiferença, ou nem olhavam.
“Primeiro dia de aula. O que será que vamos aprender hoje? Será que a aula é interessante? E a sala? Como será ela, pequena ou grande? E os professores? Serão legais ou muito austeros? E os colegas de turma, como devem ser?”. Dúvidas, apreensão, ansiedade. Perguntas como essas, e outras sem nexo algum eram formadas na mente de Thaís. Passar no vestibular, no curso de direito de uma das universidades mais disputadas no Brasil não foi fácil, estudou muito, se manteve reclusa do mundo, se envolveu em um invólucro, ficou alheia ás festas, às paqueras, aos convites das amigas para saírem. O esforço não ia parar por aí, se dedicaria igualmente aos estudos na universidade, nada de distração, paqueras, baladas.
- Porra guria! Não olha por onde anda não caralho?! – A violência na reclamação de um rapaz despertou Thaís de seus devaneios. Ela esbarrou em dois jovens, um deles tinha em mãos um copo com alguma bebida, o choque do encontro o fez involuntariamente derramar parte da bebida sobre suas vestes.
- Me desculpa, sério mesmo, eu não tinha visto vocês – escusou-se Thaís tentando limpar com seu casaco a camisa suja do rapaz.
- Não, não me toca guria! Desculpa é o caralho, como não viu a gente? Você é cega? – Gritou o rapaz com mais violência ainda. – Toma o resto.
O rapaz jogou o que sobrou da bebida no rosto de Thaís, a discussão já tinha atraído a atenção de todos que passavam, o ato do rapaz fez aumentar o burburinho que já havia.
- Esses calouros são foda! – Disse o outro rapaz olhando com desprezo para Thaís. – Vamos embora, antes que apareça alguém.
Saíram com pose de altas autoridades no meio das pessoas que estavam assistindo á discussão, todos se afastavam abrindo caminho. Estes olhavam Thaís penalizados.
“Podia esperar de tudo, tudo! Menos isso. Nunca fui tão humilhada. Que ódio! Que ódio! Ódio daqueles escrotos, ódio dessas pessoas que estão me olhando, como elas vêem isso e não fazem nada, não se manifestam, será que eram tão burros ou insensíveis que não conseguiram ler a ofensa nas entrelinhas? "vamos embora antes que alguém apareça”. Bando de filhos da puta, não perceberam que foram ofendidos também? Podiam ter tomado as dores, dizer que eles eram alguém sim. Bando de cornos, viados, vagabundas, quero que todos vão á merda, á merda!” O desabafo íntimo não aliviou a tensão de Thaís, ela saiu correndo olhando para o chão, precisava encontrar um banheiro para chorar á vontade.
Estava anoitecendo, se aproximando das sete horas da noite. A hora do “ rush” noturno naquela capital. Muitos ônibus, carros, motos, pedestres e ciclitas, mistura de sons insuportável. Aquilo tudo atordoava Thaís, ela procurava pelo ponto de ônibus aonde descera pela manhã cedo. Não conseguia encontra-lo, o estresse lhe injetou uma forte dor de cabeça, tudo o que queria era ir para casa, tomar um banho, deitar e dormir, de preferência dormir para nunca mais acordar. Muitos carros estavam estacionados no acostamento, viu um homem parado à porta de um desses carros conversando com outro que estava ao volante, e foi direto a ele para perguntar aonde era o ponto mais próximo.
- Olá, boa noite! O senhor po... – Um choque de surpresa acometeu Thaís, o homem era o mesmo que lhe jogou uma bebida no rosto na universidade. – Desculpa, eu me enganei – Saiu sem olhar para trás desejando se jogar na frente de um daqueles ônibus.
Não caminhou muito, o ponto estava a 50m de onde ela parou para pedir informação, se amaldiçoou muito mais depois de perceber isso.
Do ponto, ela pode ver o rapaz dando a volta no carro e entrando pela porta direita, que ficava para o lado da via. Viu também uma moto amarela que se aproximava lentamente do carro vindo na contramão. Os rapazes não notaram a aproximação, não notaram o piloto sacando uma arma, é provável que nem tivessem notado quando que foram mortos. O piloto sacou a arma e disparou várias vezes contra os dois rapazes dentro do carro. Com muita tranqüilidade o piloto ainda olha para dentro do carro para se certificar que não havia nenhum movimento vital, põe a arma na cintura, engata a primeira e sai lentamente do local ainda na contramão. As pessoas que estavam no ponto de ônibus correram, algumas ainda ficaram e se jogaram no chão, tomados de assombro. A tranqüilidade com que o piloto andava na via pela contramão deixaram os circunstantes mais assustados, a impressão que dava é que ele iria alvejar os que ficaram deitados. Ele nada fez, olhou para Thaís, acenou com uma das mãos, acelerou e sumiu no meio dos carros.
Assustada, respiração descompassada e muito suada Thaís se senta na cama. Há meses que o mesmo pesadelo a atormenta, terminando sempre com o som de três estouros. A terapia a que vem se submetendo não surte efeito, o sonho repetitivo sempre a remetia ao dia que presenciou um assalto e um brutal assassinado em uma agência dos correios.
“Preciso superar isso, preciso...”. Pensava com angústia. “As aulas começam em duas semanas, você precisa superar isso garota, sei que você vai superar. Você vai superar...”. E se entrega a um choro profuso, carregado de emoções contraditórias.
A universidade era enorme, podia ser bem maior que muitas pequenas cidades, possuía vários prédios espalhados num enorme território fertilizado de saber, corredores que somados poderiam ser usados para sediar uma corrida de maratona. O movimento intenso de estudantes, calouros e veteranos ampliava a percepção da dimensão do lugar. Thaís estava deslumbrada, nunca vira algo tão colossal, o colégio federal aonde estudava no interior era grande, era... Observava cada detalhe, tudo que era mini ou macro, tudo era sensacional aos seus olhos, as árvores, os bancos, as janelas, o corredores, uma flor solitária e o gramado aonde residia, as pessoas, as expressões, os traços peculiares, narizes grandes e pequenos, bocas de lábios finos ou lábios grossos, negros ou brancos, cabeludos e carecas, louros, ruivos, black power, cada mínimo detalhe era uma mega descoberta. Não que ela nunca tivesse visto pessoas ou coisas assim, mas a sensação da sua nova fase de vida deixava-a sensível á tudo. Parada ali no meio de um pátio qualquer ela podia facilmente distinguir os calouros dos veteranos, os calouros, como ela, estavam em sua maioria extasiados com tudo aquilo, os veteranos olhavam a tudo com indiferença, ou nem olhavam.
“Primeiro dia de aula. O que será que vamos aprender hoje? Será que a aula é interessante? E a sala? Como será ela, pequena ou grande? E os professores? Serão legais ou muito austeros? E os colegas de turma, como devem ser?”. Dúvidas, apreensão, ansiedade. Perguntas como essas, e outras sem nexo algum eram formadas na mente de Thaís. Passar no vestibular, no curso de direito de uma das universidades mais disputadas no Brasil não foi fácil, estudou muito, se manteve reclusa do mundo, se envolveu em um invólucro, ficou alheia ás festas, às paqueras, aos convites das amigas para saírem. O esforço não ia parar por aí, se dedicaria igualmente aos estudos na universidade, nada de distração, paqueras, baladas.
- Porra guria! Não olha por onde anda não caralho?! – A violência na reclamação de um rapaz despertou Thaís de seus devaneios. Ela esbarrou em dois jovens, um deles tinha em mãos um copo com alguma bebida, o choque do encontro o fez involuntariamente derramar parte da bebida sobre suas vestes.
- Me desculpa, sério mesmo, eu não tinha visto vocês – escusou-se Thaís tentando limpar com seu casaco a camisa suja do rapaz.
- Não, não me toca guria! Desculpa é o caralho, como não viu a gente? Você é cega? – Gritou o rapaz com mais violência ainda. – Toma o resto.
O rapaz jogou o que sobrou da bebida no rosto de Thaís, a discussão já tinha atraído a atenção de todos que passavam, o ato do rapaz fez aumentar o burburinho que já havia.
- Esses calouros são foda! – Disse o outro rapaz olhando com desprezo para Thaís. – Vamos embora, antes que apareça alguém.
Saíram com pose de altas autoridades no meio das pessoas que estavam assistindo á discussão, todos se afastavam abrindo caminho. Estes olhavam Thaís penalizados.
“Podia esperar de tudo, tudo! Menos isso. Nunca fui tão humilhada. Que ódio! Que ódio! Ódio daqueles escrotos, ódio dessas pessoas que estão me olhando, como elas vêem isso e não fazem nada, não se manifestam, será que eram tão burros ou insensíveis que não conseguiram ler a ofensa nas entrelinhas? "vamos embora antes que alguém apareça”. Bando de filhos da puta, não perceberam que foram ofendidos também? Podiam ter tomado as dores, dizer que eles eram alguém sim. Bando de cornos, viados, vagabundas, quero que todos vão á merda, á merda!” O desabafo íntimo não aliviou a tensão de Thaís, ela saiu correndo olhando para o chão, precisava encontrar um banheiro para chorar á vontade.
Estava anoitecendo, se aproximando das sete horas da noite. A hora do “ rush” noturno naquela capital. Muitos ônibus, carros, motos, pedestres e ciclitas, mistura de sons insuportável. Aquilo tudo atordoava Thaís, ela procurava pelo ponto de ônibus aonde descera pela manhã cedo. Não conseguia encontra-lo, o estresse lhe injetou uma forte dor de cabeça, tudo o que queria era ir para casa, tomar um banho, deitar e dormir, de preferência dormir para nunca mais acordar. Muitos carros estavam estacionados no acostamento, viu um homem parado à porta de um desses carros conversando com outro que estava ao volante, e foi direto a ele para perguntar aonde era o ponto mais próximo.
- Olá, boa noite! O senhor po... – Um choque de surpresa acometeu Thaís, o homem era o mesmo que lhe jogou uma bebida no rosto na universidade. – Desculpa, eu me enganei – Saiu sem olhar para trás desejando se jogar na frente de um daqueles ônibus.
Não caminhou muito, o ponto estava a 50m de onde ela parou para pedir informação, se amaldiçoou muito mais depois de perceber isso.
Do ponto, ela pode ver o rapaz dando a volta no carro e entrando pela porta direita, que ficava para o lado da via. Viu também uma moto amarela que se aproximava lentamente do carro vindo na contramão. Os rapazes não notaram a aproximação, não notaram o piloto sacando uma arma, é provável que nem tivessem notado quando que foram mortos. O piloto sacou a arma e disparou várias vezes contra os dois rapazes dentro do carro. Com muita tranqüilidade o piloto ainda olha para dentro do carro para se certificar que não havia nenhum movimento vital, põe a arma na cintura, engata a primeira e sai lentamente do local ainda na contramão. As pessoas que estavam no ponto de ônibus correram, algumas ainda ficaram e se jogaram no chão, tomados de assombro. A tranqüilidade com que o piloto andava na via pela contramão deixaram os circunstantes mais assustados, a impressão que dava é que ele iria alvejar os que ficaram deitados. Ele nada fez, olhou para Thaís, acenou com uma das mãos, acelerou e sumiu no meio dos carros.
Nossa... muito bom o seu texto... espero que tenha continuação!!!!!
ResponderExcluirPARABÉNS!
Eu quero a continuação.
ResponderExcluirAssim não vale. E o significado do sonho?
Estou aguardando.
Bjão
Érica